Qual a relação da alimentação com questões climáticas?

Atualizado: 8 de jun.

O consumo de alimentos de origem animal como carnes, ovos e laticínios, traz impactos sociais, econômicos e ambientais. “Meat the truth” é um documentário dirigido por Karen Soeters e Gertjan Zwanikken e apresentado pela deputada holandesa à Câmara dos Representantes Marianne Thieme, que aborda como as questões ambientais se relacionam com a alimentação. A obra destaca as possíveis consequências do aquecimento global, mostrando os mitos e equívocos existentes em torno do tema, assim como as possíveis ações realizadas pela humanidade para amenizar e/ou evitar uma catástrofe climática.

É um complemento a obra de Al Gore “Uma verdade inconveniente”, que aborda as questões ambientais, mas sem citar os impactos da pecuária. A imagem de que animais são criados livremente em fazendas não corresponde à realidade de confinamento animal e superlotação de granjas industriais onde são produzidos ovos, laticínios e carnes.


O documentário afirma que o aquecimento global é causado pela intensificação do efeito estufa, em consequência da alta concentração de gases - dióxido de carbono, metano e óxido nitroso -, que são provenientes principalmente da pecuária, queima de combustíveis fósseis e desmatamento.


O aquecimento global intensifica problemas sociais afetando com mais gravidade as pessoas em vulnerabilidade socioeconômica.


No quesito meio ambiente, comer carne na quantidade atual é insustentável, animais ruminantes como gado produzem metano (gás altamente poluente) durante seu processo de digestão. O documentário “Before the flood" protagonizado por Leonardo DiCaprio que foi lançado em 2016, destaca que cada molécula de metano equivale a 23 moléculas de CO2, portanto a redução do consumo de carne alguns dias na semana já traz impactos positivos ao meio ambiente.

O maior motivo para destruição da Amazônia no Brasil é devido a pecuária, vulgo produção de carne para consumo humano. Consumir carne é um processo ambientalmente caro, a poluição proveniente da agropecuária é maior que a ocasionada por modais de transporte.


Galinhas e porcos não produzem metano, mas precisam ser alimentados com os grãos produzidos pelo agronegócio, cerca de 50% da produção de grãos e 75% de toda a soja produzida é destinada à alimentação agropecuária. Essa alta produção acarreta em perda da biodiversidade, desmatamento e desperdício de recursos naturais.


A campanha segunda sem carne produzida pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), estima que o benefício ambiental de um dia inteiro sem ingerir alimentos de origem animal é poupar menos 14 kg de CO2 na atmosfera (equivalente a 100 km rodados num carro comum).


Há um negacionismo de alterações climáticas relacionadas ao aquecimento global, parte da população acredita que ele é inexistente ou que seus efeitos seriam sentidos somente depois de muitas décadas ou centenas de anos. Esse pensamento é alimentado por campanhas de fake news financiadas pela indústria de combustíveis fósseis e por interesses corporativos, que confundem a sociedade sobre a real gravidade do aquecimento global.


Exploradores e colonos contribuíram para a extinção de espécies e dizimação de ecossistemas. Atualmente isso continua a ser replicado numa escala muito maior através da economia baseada em combustíveis fósseis: petróleo, carvão e gás natural.


Before the flood traz o impacto ambiental dessa economia que resulta em morte de indígenas e comunidades tradicionais, contaminação de água e solo, queimadas, desmatamento, derretimento das geleiras, desaparecimento de recifes, avanço das marés, inundações, e diversas catástrofes ambientais.


Oceanos e florestas realizam a absorção de CO2 da atmosfera e estabilização do clima, a destruição dos ecossistemas faz com que a Terra perca sua capacidade de se regenerar, aumentando ainda mais o aquecimento global.


Ações individuais são importantes, mas não suficientes sem políticas públicas bem consolidadas. Para uma população decidir reduzir alimentos de origem animal por consciência, ela precisa ter acesso a informação e a também segurança alimentar (acessibilidade a alimentos nutritivos em quantidade e qualidade adequada). Incentivar que a população reduza o tempo de banho para frear o aquecimento global tem impacto incomparavelmente menor que a redução dos produtos da pecuária.


Leis e políticas públicas para enfrentamento das alterações climáticas não são aprovadas pela parcela significativa de políticos que são negacionistas e beneficiados por lucros de curto prazo com a indústria de combustíveis fósseis.


Na China há uma grande preocupação com alterações climáticas, provavelmente por elas serem sentidas no cotidiano através do adoecimento da população pela poluição e transmissão de doenças. O país está fazendo transição para uso de energias renováveis (solar e eólica), porém países subdesenvolvidos dificilmente terão condições de fazer o mesmo.


A Índia por exemplo, tem vastas reservas de carvão, que é a fonte mais acessível de energia do país. A segurança alimentar de grande parte da população depende do carvão, como fazer a transição para energias renováveis em países pobres que são os mais prejudicados em todos os âmbitos das consequências do aquecimento global?


Em relação à alimentação, além dos produtos de origem animal, o óleo de palma é comumente usado como aditivo em alimentos processados, o impacto ambiental dessa commodity é a destruição de florestas da Indonésia e morte de espécies como orangotangos.


Comer é um ato político, consumir frequentemente produtos da agropecuária contribui para o fortalecimento desse sistema alimentar com alto impacto ambiental e social.


Cowspiracy é um documentário lançado em 2014 que também enfatiza a problemática da agricultura animal (agropecuária), cita o documentário de Al Gore “Uma verdade inconveniente” e critica a falta de dados sobre os impactos da indústria da carne sobre o meio ambiente.

A ração de gado tem uma grande pegada hídrica, o que significa que um hambúrguer de 114 gramas requer cerca de 2.500 litros de água para sua produção, portanto o consumo doméstico de água é muito menor que o gasto de água provindo do consumo de carnes.


O Agronegócio é a principal causa do desmatamento da Floresta Amazônica, pessoas que falaram sobre isso sofreram ameaças e alguns ativistas foram mortos como Dorothy Stang que foi uma freira morta no Brasil por defender a preservação da Amazônia e denunciar os avanços da pecuária.


Os três documentários citados trazem a reflexão sobre quantos dias por semana é possível ficar sem consumir produtos de origem animal para reduzir os impactos do aquecimento global. É nutricionalmente adequado o consumo de uma alimentação baseada em comida de origem vegetal, sendo incentivada a substituição de carnes por leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico), o que traz benefícios para saúde humana, animal e planetária.


Nutricionista Valkiria Assis

CRN 71936-P


Referências:

An Incovenient Truth. Dirigido por Davis Guggenheim. Produzido por Lawrence Bender,Scott Burns, Laurie Lennard e Scott Z. Burns. Elenco: Albert Arnold Gore Júnior. EstadosUnidos: Lawrence Bender Productions / Participant Productions, 2006. Filme (100 min), DVD, color, 35 mm


Before the flood.2016. https://www.beforetheflood.com/about/


Costa, A. P. A. UFPB. RESENHA CRÍTICA DO FILME UMA VERDADE INCOVENIENTE. 2016.

https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistageografia/article/view/229169


Cowspiracy. Um filme da AUM Films & First Spark Media — Produzido por Kip Andersen & Keegan Kuhn — Copyright 2014 - Animals United Movement AUM. https://www.cowspiracy.com/


Fundação Nicolaas G. Pierson . Meat the Truth. 2008.

https://www.ngpf.nl/documentaire-meat-the-truth/


SVB. Segunda Sem Carne.

https://www.svb.org.br/pages/segundasemcarne/#:~:text=A%20Campanha%20Segu nda%20Sem%20Carne,menos%20uma%20vez%20por%20semana.


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