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O tipo de parto faz diferença?



O documentário Renascimento do Parto 1 apresenta a grave realidade obstétrica mundial e brasileira, com um número alarmante de cesarianas ou de partos com intervenções traumáticas e desnecessárias.


Há outros dois filmes sequenciais, o Renascimento do Parto 2 apresenta diversas situações de violência obstétrica e o terceiro filme contrapõe apresentando algumas experiências de parto humanizado bem-sucedidas pelo mundo, como a do Centro de Parto Humanizado Casa Angela de São Paulo, assim como o cenário obstétrico na Holanda, na Nova Zelândia e no Camboja.



A via de parto escolhida influencia a saúde do recém-nascido. Crianças nascidas por cesariana têm mais risco de desenvolver asma, distúrbios, artrite juvenil, doenças inflamatórias do intestino, deficiências imunológicas e leucemia. A hipótese é que parte dessas doenças esteja relacionada com a formação do sistema imunológico do bebê, que pode ser prejudicada principalmente em cesáreas planejadas.



O tipo de parto influencia também a escolha pela amamentação, um artigo publicado em 2021 aponta que as taxas de aleitamento materno exclusivo em todo o mundo são relativamente baixas, principalmente após uma cesariana que gera às mães mais dificuldades em relação à amamentação.


O parto cesáreo foi amplamente implementado no mundo inteiro nas últimas décadas, é capaz de afetar o início e a duração da amamentação, pois durante o trabalho de parto o corpo libera hormônios como a prolactina e a ocitocina, que favorecem a produção e ejeção do leite humano, em cesáreas programadas esse processo não ocorre, o que dificulta a lactação.


Vários estudos comprovaram que a amamentação na primeira hora de vida, chamada também de “golden hour” ou “hora de ouro” é um momento importantíssimo para a promoção da saúde, estando associado à maior duração do aleitamento e à redução das mortes infantis, principalmente nos países de baixa renda.


É recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) colocar bebês em contato direto com a mãe logo após o parto por pelo menos uma hora e estimular a mãe a identificar se o bebê está pronto para ser amamentado oferecendo ajuda se necessário, a anestesia de cesáreas também pode reduzir a mobilidade da parturiente (pessoa que está parindo), fazendo com que ela muitas vezes precise de apoio para posicionar o bebê corretamente para a primeira mamada.


No período pós parto os bebês têm resposta maior ao tato, ao calor e ao odor da mãe, o que favorece a produção do leite e consequentemente as chances de lactação.


Bebês que nasceram de cesariana e são amamentados compartilham uma microbiota intestinal semelhante a bebês nascidos por via vaginal, o que reforça que apesar das dificuldades impostas por uma cesárea na amamentação, bebês nascidos desta via de parto precisam ainda mais do aleitamento materno exclusivo para formarem uma microbiota intestinal saudável.


A microbiota vaginal conta com maior variedade de microrganismos colonizadores, que auxiliam na formação de um sistema imunológico robusto no recém nascido, por isso deve ser a primeira opção de via de parto considerada.


O aumento das taxas de cesariana, as alterações na alimentação, o uso indiscriminado de antibióticos têm modificado a composição microbiota natural do ser humano. Esse desequilíbrio entre os microorganismos pode favorecer o crescimento de bactérias patogênicas e gerar disbiose intestinal, que predispõe ao desenvolvimento de doenças refletindo negativamente na saúde da população.


Além disso, há bactérias envolvidas na digestão do leite humano, e a sua escassez no intestino neonatal pode provocar problemas digestivos, assim como alergias, imunidade mais baixa entre outras condições desfavoráveis à saúde da criança.


Portanto o parto vaginal é a via ideal para favorecimento da microbiota intestinal e das chances de aleitamento, o que reflete na saúde da população. Outros fatores como uso de antibióticos intraparto em parto cesáreo e vaginal estão associados à disbiose da microbiota intestinal infantil. A amamentação modifica alguns desses efeitos, portanto sempre deve ser incentivada e fortalecida através de políticas públicas e redes de apoio à lactante.


Nutricionista Valkiria Assis

CRN 3 71936/P


Referências:

Coelho GDP, Ayres LFA, Barreto DS, Henriques BD, Prado MRMC, Passos CM. A microbiota adquirida de acordo com a via de nascimento: uma revisão integrativa. Rev. Latino-Am. Enfermagem 2021. DOI: 10.1590/1518-8345.4466.344


FioCruz. Acre - Amamentação pós-cesárea requer cuidados e rede de apoio qualificada. 2019. Disponível aqui!


FioCruz. Estudo relaciona cesariana e não amamentação do bebê na primeira hora de vida. 2014. https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-relaciona-cesariana-e-nao-amamentacao-do-bebe-na-primeira-hora-de-vida


Li L, Wan W, Zhu C. Breastfeeding after a cesarean section: A literature review. Midwifery. 2021 Dec;103:103117. doi: 10.1016/j.midw.2021.103117. Epub 2021 Aug 14. PMID: 34425257.


Tonon KM, Morais TB, Taddei CR, Araújo-Filho HB, Abrão ACFV, Miranda A, de Morais MB. Gut microbiota comparison of vaginally and cesarean born infants exclusively breastfed by mothers secreting α1-2 fucosylated oligosaccharides in breast milk. PLoS One. 2021 Feb 8;16(2):e0246839. doi: 10.1371/journal.pone.0246839. PMID: 33556125; PMCID: PMC7870049.


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