O começo da vida

Atualizado: há 5 dias

O documentário “O começo da vida” foi produzido pela Maria Farinha Filmes e lançado em 2016. A obra retrata como ocorre o crescimento dos seres humanos nas fases de gestação e primeira infância, o desenvolvimento é influenciado pela combinação da genética com a qualidade das relações que desenvolvemos e do ambiente em que estamos inseridos.

Alguns autores abordam os primeiros 1090 dias (3 meses antes da gestação até 2 anos de vida da criança) como essenciais para o neurodesenvolvimento, imunidade e saúde como um todo, impactando também nos hábitos alimentares.


Comer é uma experiência aprendida, portanto alimentar-se bem é uma competência que precisa ser construída com base em condições dignas de segurança alimentar, financeira, psicológica, física, entre outras.


Bebês são as melhores “máquinas de aprender” do universo, a cada segundo seus cérebros fazem de 700 a 1000 conexões novas. Crianças são cientistas ultra sensíveis, que formulam hipóteses, testam e prestam atenção em tudo para descobrir o mundo.


A criança precisa ser livre para experimentar e aprender, inclusive na alimentação, fatores que restringem essas experiências, limitam o desenvolvimento desses seres humanos.


O aprendizado e a relação com a alimentação começam no útero, a ciência já sabe que o tipo de alimento que a gestante consome durante a gravudez influencia os hábitos alimentares da criança.


O documentário também aborda a realidade de famílias e mães que não podem proporcionar cuidado adequado aos bebês, reforçando que mães pobres também têm o direito de maternar e é dever do estado criar melhores condições para tal através do fortalecimento de políticas públicas como licença maternidade e paternidade, creches e outras estratégias.


O aleitamento humano exclusivo é recomendado até os 6 meses de idade, e a partir dessa fase é recomendado ser mantido como um complemento à alimentação até cerca de 2 anos de idade, de acordo com o Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos.


Dentre os aprendizados do início da vida, a comida é a cultura que passamos para criança e para as próximas gerações, ela tem um papel afetivo muito importante pois é a forma de nutrição que substitui a amamentação, momento de aconchego, cuidado, amor e inúmeros significados subjetivos para criança.


O sucesso do aleitamento humano depende de vários fatores, e o documentário aponta uma pesquisa realizada nos Estados Unidos que destaca que apesar de 90% das mulheres desejarem amamentar seus filhos, somente 16% delas mantém a amamentação exclusiva até os 6 meses de idade. Essa taxa é diretamente proporcional ao baixo acesso à licença maternidade. Em países como a Suécia e a Finlândia, onde mães e pais recebem um salário integral para cuidar de seus filhos, a taxa de amamentação é muito mais alta.


Criar um ser humano não é visto como trabalho, frases como "você só cuida da criança” demonstram como a função parental é subestimada e desvalorizada, o que prejudica desde o início a nutrição adequada dos bebês através da amamentação.


Outro ponto destacado é que o papel do homem na parentalidade não é de ajuda, pois a responsabilidade deve ser compartilhada e não somente da mãe, sendo função do pai assumir a responsabilidade de se fazer presente na vida do seu filho.


Muito além de presença ou ausência de amor por parte dos pais, a sobrecarga das circunstâncias ocasionadas pela pobreza são mais cruéis para crianças e mulheres.


Dedicar mais tempo aos filhos nem sempre é uma opção, e com isso os bebês inseridos em contextos de vulnerabilidade social têm seu desenvolvimento prejudicado. A pobreza por si só já é uma violação dos direitos humanos, predispondo a fome, a gravidez na adolescência, o abandono paterno, o suicídio, a violencia e a outros fatores negativos que fazem parte do cotidiano da infância de muitos, e acarrentando em inúmeras questões de saúde física e mental, incluindo a desnutrição.


O documentário também reforça sobre a diversidade de formatos familiares, afirmando que a parentalidade pode ser exercida de maneira monoparental e por todos os tipos de casais, independente dos gêneros. Além disso cita o provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia para se educar uma criança”, portanto todos na sociedade têm algum grau de responsabilidade sobre o desenvolvimento adequado das crianças.


É incoerente pensar num futuro saudável em um mundo onde o começo da vida não é levado em consideração, proteger a infância é investir na humanidade. Viver com crianças é ter a oportunidade de redescoberta de muitas coisas, porém essa experiência antropológica positiva é privilégio de poucos, portanto os direitos humanos devem ser assegurados pelo estado através de políticas públicas que promovam equidade e uma infância segura para todos.


Nutricionista Valkiria Assis

CRN-3 71936/P


Referências:


Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos versão resumida [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Brasília : Ministério da Saúde, 2021.


O começo da vida. MARIA FARINHA FILMES. 2016. https://ocomecodavida.com.br/filme-completo/


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