Como a nutrição pode ajudar quem sofre de dependência química?

Atualizado: 29 de mar.



O Relatório Mundial sobre Drogas 2021 divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que cerca de 275 milhões de pessoas usaram drogas no mundo em 2020, enquanto mais de 36 milhões sofreram de transtornos associados ao uso de drogas.


O impacto social da pandemia — que gera um aumento da desigualdade, da miséria e adoecimento mental, principalmente de populações já vulneráveis — é um fator que tem levado mais pessoas a consumir drogas.


Em paralelo ao aumento do uso de drogas, na capital paulista há 31.884 pessoas vivendo em situação de rua, registrando um crescimento de 31% nos últimos dois anos. Quase 70% das cidades do estado tem uma população total menor que a quantidade de moradores de rua na cidade de São Paulo.


Os dados revelam que mais de 90% das pessoas em situação de rua na cidade frequentaram escola, sabem ler e escrever. Os principais motivos que levaram a situação de rua foram conflitos familiares (34,7%), dependência de álcool e outras drogas (29,5%) e perda de trabalho/renda (28,4%).


Para pessoas em situação de rua, mais que uma fuga da realidade, o uso de crack e demais drogas tem também o intuito de mascarar a fome, alimentando um ciclo vicioso de insegurança alimentar e dependência química.


Além disso, a dependência química é um problema à segurança alimentar, porque compromete uma parcela do orçamento familiar com a aquisição de bebidas alcoólicas e outras substâncias.


O uso de drogas pode causar condições clínicas com complicações cardíacas, renais, hepáticas, respiratórias, gastrintestinais e neurológicas. Os efeitos nutricionais desencadeados pelo uso de substâncias psicoativas variam dependendo do tipo, quantidade, frequência e tempo de consumo de cada droga.


O Transtorno por uso de álcool e o transtorno por uso de drogas geram deficiências nutricionais que podem causar miopatia alcoólica, desregulação dos hormônios de fome e saciedade, osteopenia e osteoporose, e transtornos do humor, incluindo ansiedade e depressão.


O uso crônico pode levar à anorexia induzida pelo uso de drogas. Por outro lado, em pesquisas realizadas com pessoas em reabilitação da dependência de substâncias químicas, foi verificado um padrão alimentar de dietas pobres em frutas e vegetais e ricas em gorduras e açúcares, registrando altos índices de sobrepeso e obesidade e consumo de alimentos ultraprocessados.


A nutrição faz muita diferença na recuperação física do indivíduo usuário de drogas, reparando os danos causados no cérebro, fígado e sistema digestivo, criando melhores condições para trabalhar questões mais profundas do tratamento (aspectos mentais, sociais e psicológicos). Uma das complicações da desnutrição é aumentar o risco de recaída, portanto a melhora do estado nutricional pode tornar o tratamento mais eficaz, reduzindo o desejo por drogas e álcool, e prevenindo assim a reincidência.


Estudos indicam que aminoácidos específicos e ácidos graxos ômega-3 são promissores para diminuir a recaída e melhorar a saúde mental durante o tratamento.


Pode haver transferência de dependência da droga por desejo por comida, principalmente doces, por isso é importante avaliar a qualidade da alimentação que as pessoas em recuperação estão ingerindo.


Medidas antropométricas como peso e altura não dizem tudo sobre o estado nutricional desses indivíduos, que sofrem de diversas alterações metabólicas que podem ser avaliadas por exames laboratoriais.


Quanto maior o grau de vulnerabilidade social (menor escolaridade e renda, ausência de cônjuge e moradia) maior o impacto negativo no estado nutricional. Nas últimas décadas o consumo de álcool e drogas sofreu um aumento significativo entre gestantes, o que pode desencadear deficiências nutricionais e prejudicar o desenvolvimento adequado do feto. O fornecimento inadequado de nutrientes pode gerar anormalidades fetais como Restrição de Crescimento Intrauterino e Transtorno do Espectro Alcoólico Fetal.


A síndrome alcoólica fetal é caracterizada pelo retardo de crescimento, malformações faciais e comprometimento do sistema nervoso central do feto. É urgente a necessidade de um plano estratégico para redução do comprometimento físico e neurológico do feto causado pela exposição pré-natal com abuso de álcool e drogas.


Estudos indicam que nutrientes como vitamina A, ácido docosahexaenoico, ácido fólico, zinco, colina, vitamina E e selênio podem prevenir ou aliviar o desenvolvimento de transtorno do espectro alcoólico fetal.

Além disso, gestantes que tiveram abuso de álcool e drogas durante a gestação, apresentaram deficiência de certos nutrientes, incluindo folato, vitamina B12, Zn, Fe e Cobre. A correção dessas deficiências e suplementação de antioxidantes como Vitamina E e C é uma evidência científica para melhora do estado nutricional, porém que é inacessível à mulheres em condições de vulnerabilidade socioeconômica.


Os nutrientes necessários para uma boa nutrição encontram-se em alimentos in natura e minimamente processados, uma alimentação natural e vegetal é um dos pilares do tratamento tanto para usuários como para os ex-usuários.


Portanto, a violação do direito humano à alimentação adequada contribui para aumento da população de rua e uso de drogas. Há diversas situações que podem levar um indivíduo a essas condições. As drogas saciam fomes físicas e mentais, é necessário uma estratégia de combate às drogas e redução de danos que inclua alimentação e nutrição como parte do tratamento.


Nutricionista Valkiria Assis

CRN-3 71936/P


Referências:

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Cobucci, A. M. Relatório Mundial sobre Drogas 2021 avalia que a pandemia potencializou riscos de dependência. 2021.

https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2021/06/relatorio-mundial-sobre-drogas-2021-do-unodc_-os-efeitos-da-pandemia-aumentam-os-riscos-das-drogas--enquanto-os-jovens-subestimam-os-perigos-da-maconha-aponta-relatorio.html


CNN. População em situação de rua cresceu 31% nos últimos dois anos em São Paulo. 2022.

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/populacao-em-situacao-de-rua-cresceu-31-nos-ultimos-dois-anos-em-sao-paulo/


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