Alimentação na gestação: como manejar queixas comuns?



Gestar implica em diversas modificações no corpo humano, que muitas vezes, são percebidas como “doenças” pela sociedade. Portanto, é importante ressaltar quais sintomas são fisiológicos numa gestação e como a nutrição pode ajudar no manejo dessas queixas.


A alimentação saudável na gestação favorece o adequado desenvolvimento fetal e a saúde da gestante, além de prevenir o surgimento de agravos, como diabetes gestacional, hipertensão e ganho de peso excessivo.


As alterações fisiológicas e sintomatologias que podem influenciar o consumo alimentar mais comuns entre gestantes são: náuseas, vômitos e tonturas; azia; plenitude gástrica; constipação intestinal; fraqueza; desmaios; dores físicas, inchaço e alterações bucais.


O Ministério da Saúde lançou em 2021 o Protocolo de uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na orientação alimentar de gestantes, nesse documento constam recomendações práticas para alimentação nessa fase da vida.


A primeira orientação é consumir diariamente feijões (ou outras leguminosas como grão de bico, ervilha e lentilha), que promovem saciedade, bom aporte de proteínas, fibras, vitaminas e minerais importantes, como o ferro.


A segunda recomendação é evitar o consumo de bebidas adoçadas, tais como refrigerante, suco de caixinha, suco em pó e refrescos (também chamadas de bebidas ultra processadas). Esse produtos podem piorar sintomas de náuseas e vômitos, e quando contém também cafeína, podem aumentar o risco de abortos, partos prematuros, baixo peso da criança ao nascer e natimorto. Além disso, o consumo de bebidas ultraprocessadas está associado a intolerância à glicose, diabetes gestacional e alteração da microbiota intestinal, ganho de peso gestacional excessivo e maior probabilidade de excesso de peso em crianças na primeira infância.


A terceira recomendação é evitar também o consumo de alimentos ultraprocessados, pois eles são ricos em gordura, açúcar e sódio e muito pobres em fibras, vitaminas e minerais. Essa categoria de alimentos prejudica o controle da fome e saciedade, e estimulam o comer sem atenção, induzindo ao consumo excessivo e à substituição de alimentos in natura ou minimamente processados. Esse padrão alimentar está associado a desfechos de saúde materno infantil negativos e podem piorar náuseas, azia, constipação intestinal, além de contribuir para o aumento do risco de deficiências nutricionais.


A quarta recomendação é manter um consumo diário de frutas, legumes e verduras, que são excelentes fontes de vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes, nutrientes essenciais durante a gestação. Tal consumo contribui com a prevenção de nascimento prematuro, desenvolvimento de anomalias congênitas e ganho de peso gestacional excessivo. Além disso, as fibras presentes nesses alimentos contribuem para o metabolismo glicêmico e o funcionamento saudável do intestino, evitando a constipação intestinal, que pode ser comum nessa fase.


Por fim, o guia aconselha que a gestante se alimente com regularidade e atenção, sem se distrair assistindo televisão, mexendo no celular ou computador, e sempre que possível, faça as refeições em companhia de familiares ou amigos.


Além das alterações físicas esperadas, o gestar é cercado de crenças, aversões, desejos e restrições, que estão ligados a questões culturais, religiosas e emocionais.


A picamalácia é uma alteração alimentar que desperta o desejo de ingestão persistente de substâncias estranhas/não alimentares/sem valor nutritivo ou de substâncias comestíveis de forma não convencional (ex: tijolo, barro, argila, papel). Não há um consenso na literatura científica sobre essa condição, entretanto zinco e ferro parecem ser os nutrientes críticos na picamalácia, até o momento não se sabe exatamente se as deficiências nutricionais causam picamalácia ou se picamalácia causam as deficiências nutricionais, pois os estudos não são de causa e efeito, e sim de associação.


Em casos de maior complexidade com risco gestacional, a recomendação do Ministério da Saúde é que o pré natal seja feito por uma equipe multiprofissional ou especializada, que trabalhe sob a perspectiva de um cuidado integral, considerando aspectos relacionados à vulnerabilidade social e renda, à rede de apoio, à idade das gestantes e às condições de trabalho, que influenciam indiretamente o acesso à uma alimentação saudável, e consequentemente a boa nutrição na gestação.


Nutricionista Valkiria Assis

CRN-3 71936/P


Referências:

Borgna-Pignatti C, Zanella S. Pica as a manifestation of iron deficiency. Expert Rev Hematol. 2016 Nov;9(11):1075-1080. doi: 10.1080/17474086.2016.1245136. Epub 2016 Oct 19. PMID: 27701928.


Brasil. Ministério da Saúde. Fascículo 3 Protocolos de uso do Guia Alimentar para a população brasileira na orientação alimentar de gestantes [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Universidade de São Paulo. – Brasília : Ministério da Saúde, 2021. 15 p.: il. Modo de acesso:

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolos_guia_alimentar_fasciculo3.pdf ISBN 978-65-5993-088-3


Miao D, Young SL, Golden CD. A meta-analysis of pica and micronutrient status. Am J Hum Biol. 2015 Jan-Feb;27(1):84-93. doi: 10.1002/ajhb.22598. Epub 2014 Aug 26. PMID: 25156147; PMCID: PMC4270917.


Young SL. Pica in pregnancy: new ideas about an old condition. Annu Rev Nutr. 2010 Aug 21;30:403-22. doi: 10.1146/annurev.nutr.012809.104713. PMID: 20420523.


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